quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Mais leve que o ar

Luiz Carlos Secco

Da mesma forma com que dava beleza às páginas do Jornal da Tarde, Murilo Felisberto ornamentava a vida, prestigiava as amizades, incentivava os companheiros de trabalho, acolhia as boas idéias. Afável, com voz tranqüila e sorriso que viajava entre a timidez e o respeito transmitia paz e confiança a quem dele se acercava. Foi sempre assim em nossa convivência no jornal e, posteriormente, fora dele, era tratado com elegância e me fazia sentir que estava feliz por me encontrar e que nutria admiração pelos trabalhos que realizei ao longo dos anos. Era evidente a sua alegria por encontrar um velho companheiro.

Altamente competente e criativo, era também sofisticado. Creio que não dirigia veículos, mas nutria muita paixão por carros, especialmente pelos belos, como o Duesenberg, um clássico norte-americano dos anos 20 e 30 que marcou época pela exuberância de seu acabamento, pela esportividade marcante, pelas linhas nobres e pelo requinte mecânico. Automóvel desejado por personalidades ilustres, atores e atrizes. O duque de Windsor, os reis Alfonso XIII, da Espanha, e Emmanuel, da Itália, Greta Garbo, Mae West, Clark Gable e Gary Cooper foram alguns entre os famosos a possuir um Duesenberg.

Entre os carros brasileiros, entusiasmou-se pelo Chevrolet Opala quando foi lançado, em 1968. Sua mente criativa imaginou um acabamento diferente para esse produto com carroceria européia e mecânica norte-americana com o qual a General Motors ingressou no campo dos automóveis, depois de muito tempo como mera fabricante de pick-ups e caminhões: branco, com interior inteiramente na mesma cor.

Murilo mantinha o comportamento ameno até nos momentos em que o normal seria agir com rispidez. Lembro-me que idealizei uma reportagem na antiga chácara da Willys, em São Bernardo do Campo, onde a empresa preparou-se para fotografar toda a linha 1967, inclusive o Itamaraty Executivo, primeira limusine brasileira que teve o primeiro exemplar entregue ao então presidente da República Humberto de Alencar Castelo Branco. Pelo forte esquema de segurança que seria montado, imaginei que as fotos somente seriam possíveis com o uso de um helicóptero, idéia que ele aprovou entusiasmado. Naturalmente, o setor de transportes do jornal precisaria tomar as providências para a locação da aeronave. Mas, ao entregar a requisição por ele assinada, recebi um categórico “não” do responsável. Ao saber da negativa, Murilo não perdeu a elegância, nem levantou a voz. Simplesmente levantou-se da cadeira, dirigiu-se ao chefe de transportes e o convenceu, de forma amena, sobre a importância do trabalho para o jornal.

Foi a primeira reportagem brasileira do setor automotivo com esse recurso e, como resultado, um vibrante trabalho, que envolveu tentativas de agressão, armas empunhadas e a colisão de uma pick-up Willys na traseira de um Mercury 53, que o fotógrafo Luiz Manuel idolatrava, mas que decidiu colocar no esquema para evitar a presença de veículos do jornal que nos identificassem. A reportagem terminou com uma fuga da equipe do jornal no velho Mercury amarrotado vencendo uma perseguição feita pelos raivosos funcionários da Willys em carros do modelo ainda a ser lançado. Entusiasmado com o trabalho, o próprio Murilo fez o título de uma das páginas da reportagem: “Willys 67 perde sua primeira corrida”.

Bola Virtual: Murilinho, volte aqui. Não volta mais!

Alberto Helena Jr.


Já leu Proust? Pois precisa ler, precisa ler – sentenciou-me com o indicador quase diáfano pautando no ar cada sílaba.

- Aimez-vous Brahms? – respondi-lhe, numa alusão ao péssimo romance de Françoise Sagan que ainda fazia um sucesso danado naquele tempo distante, virada dos anos 50 para os 60, pois sabia já de sua paixão por Bach, Vivaldi e seu horror por textos ruins. Um diálogo insólito, feito de referências e insinuações, que marcaria nossos encontros pela vida afora durante os últimos quarenta e tantos anos.

Murilinho, até então, aos meus olhos, era apenas uma silhueta curiosa, um fiapo de gente, alva, quase transparente, que cortava a noite e as redações sobraçando maços de jornais, revistas e livros, naquele passinho miúdo e rápido, dissimulando assim o gênio do jornalismo brasileiro que se escondia por trás de um meio sorriso cínico com o qual encerrava seus breves e frequentes recitais de assobio, acompanhando do dedinho diáfano no ar, feito batuta de maestro.

- Escale sua Seleção. Se bater com a minha, está contratado. – anunciou muitos anos depois, na mesa do primeiro Giovanni Bruno.

Esse era o teste a que Murilinho me submetia para ver se este ex-crítico de música sabia sobre o futebol o suficiente para voltar ao Jornal da Tarde, agora, em nova função.

Recitei nome por nome da minha seleção ideal para a Copa de 70, e fui aprovado:

- Bate com a minha, bate com a minha – ciciou Murilinho, que não falava, ciciava.

- Pois se bate com a sua, não deveria nunca me contratar, já você não sabe nem o formato de uma bola de futebol, quanto mais escalar uma Seleção Brasleira.

Não sabia mesmo, nunca chutou bola, nem de meia. Mas, lia, lia muito, e sabia de tudo o que estava ocorrendo no mundo, em cada seção dos jornais, identificava talentos para o ofício onde ninguém suspeitaria ali estivesse um pingo de bossa para a profissão. Disfarçava, porém, todo esse conhecimento sob um falso véu de alienação, e se divertia muito com isso.

Há tempos não o via. E eis que, de repente, surpreendo sua silhueta passando ali em frente, abraçado àquela pilha de livros, jornais e revistas, no passo miúdo e rápido. Pra onde vai, Murilo? Espere mais um pouco, o copo ainda está cheio, cara. Volte aqui. Não volta mais.