quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Murilo Agostini Felisberto

Alfredo Alves de Lima

Fiquei muito alegre em saber desta iniciativa de montarmos um breve compêndio sobre nossas lembranças individuais com nosso querido Murilo, a quem chamarei daqui em diante da mesma maneira como sempre me referi a ele: “Mú”.

Tive o grande privilégio de conhecê-lo aos doze anos, quando me mudei para seu apartamento na Rua Cristiano Viana com minha mãe, Ignez Whitaker, e minhas duas irmãs, Nina e Meméia. Foi durante esta época que conheci minha terceira “irmã”, a Carlota, filha única do Mú.

Desde então, ele foi sempre um grande pai para mim – de certa maneira muito mais presente e ativo do que meu próprio pai biológico. Sempre me incentivou, me apoiou, me fez rir, me deu dicas, me surpreendeu e me amou – claro, à sua maneira absolutamente única e especial.

Adorava acordar de manhã e tomar café com ele, saborear um suco de laranja sempre super fresco, um pão com manteiga crocante com um boa dose de manteiga e um cafezinho bem escuro – sempre acompanhado de seus jornais e revistas. Adorava também ouví-lo tocar piano, o qual ficava no segundo andar de seu charmoso duplex.

Após algum tempo, nos mudamos para uma lindíssima casa na Rua Santo Antonio, no bairo do Bixiga, que minha mãe acabara de comprar e restaurar. Esta fase também foi marcada por muitos momentos alegres, dentre os quais sobresai a mudança de meu irmão Antonio Manoel, que havia deixado a casa de meu pai no Morumbi para vir morar conosco. Para melhorar, nossa família expandida contava agora também com as frequentes visitas de nossa querida Carlota.

Na casa da Rua Santo Antonio, tenho dois grandes momentos dos quais me recordo com especial carinho: O primeiro eram as nossas refeições, sempre populosas e muito animadas, que o Mú oportunamente enriquecia com seus comentários breves porém altamente perspicazes e contundentes. O segundo, quando Mú e eu, apenas nós, nos dirigíamos para a sala de TV para assitir filmes de faroeste. Costumávamos conversar sobre tudo ao mesmo tempo em que ele assitia ao filme, lia seus jornais e fazia caricaturas, arte esta que ele dominava com especial primor e requinte, mesmo que feitas em uma mera folha de guardanapo ou no próprio jornal. (Que pena que nunca guardei nenhuma delas!!!)

Depois, quando fui estudar em Nova York, minha amizade pelo Mú se estreitou ainda mais. Saíamos sempre juntos, acompanhados de minha mãe e minha então namorada e atual mulher Patricia. Nosso principal programa era visitar lojas de som, das mais simples às mais sofisticadas. Apesar de sua total fluência, ele não costumava se expor ao idioma, fazendo com que eu desempenhasse o papel de intérprete.

Durante a época em que trabalhava no Republic National Bank, ao lado da biblioteca na 5a avenida, o Mú vinha sempre almoçar comigo. Ele adorava também ir à loja Barneys para procurar por sapatos e gravatas.

Depois de muitos anos, quando voltei ao Brasil, continuei muito próximo ao Mú. Sempre nos falávamos por telefone ou íamos visitá-lo em seu apartamento na Rua Piauí antes de sairmos para jantar – muitas vezes no restaurante Arábia. Ele adorava minha mulher Patricia e achava profunda graça em meus três filhos, Julita, Pedro e Lucas.

Me recordo de um episódio um tanto “Murilesco”, quando eu e minhas irmãs havíamos combinado de sair com ele para jantar. Subimos ao seu apartamento, conversamos um pouco e enfim descemos. Quando já estávamos no ponto de taxi na Praça Buenos Ayres prestes a adentrar o carro, o Mú nos olhou e disse que não estava mais com vontade de sair. Simplesmente nos deu um carinhoso beijo e começou a caminhar de volta rumo ao seu prédio. Mesmo que de certa forma surpresos como o repentino “abandono”, rimos muito, pois sempre compreendemos e de fato admirávamos a sinceridade e a legitimidade de seus atos.

Enfim, são estas algumas das inúmeras lembranças alegres que tenho do nosso querido Mú. A última da qual me recordo com particular prazer ocorreu num domingo recente, pouco antes de seu falecimento, quando fomos tomar um brunch no Café Suplicy. Estava confidenciando a ele uma experência ruim e triste que havia tido com meu pai. Logo que acabei de “descarregar” toda minha indignação sobre o comportamento de meu pai, o Mú me olhou sobre a folha do jornal e disse” “Tá certo, Alfredo, seu pai fez a coisa certa!”. Ele, mais uma vez, com seu jeito único, sereno e sobretudo enfático, me fez rir, me surpreendeu e, acima de tudo, me desarmou por completo.

Mú – obrigado por tudo, por seu carinho, por sua sabedoria, por sua sempre deliciosa companhia. Sinto muitas saudades de você, de nossas risadas, de suas fofocas, de seu talento, de seu senso de humor, de escutar música com você e, sobretudo, de sua torcida. I will miss you forever.

Much love….

Alfredo (vulgo “Anjo”)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Murilinho por Rodolfo Vanni

Murilo Felisberto por Márcio Pinheiro

Márcio Pinheiro

Foi o melhor chefe que eu tive. Foi o pior chefe que eu tive. Trabalhar (conviver) com Murilo Felisberto era viver nessa gangorra. Foi alguém que acreditou em mim desde o primeiro momento. Sem motivo algum. Eu, aqui em Porto Alegre, fui chamado por ele, que tinha algumas (poucas) referências minhas, quase todas elas passadas pela Cacaia.

Já sabia do talento gregário, da capacidade de aglutinar talentos, primeiro na gênese do Jornal da Tarde, depois na DPZ. Tive a a alegria de trabalhar com alguns desses discípulos - Ilan, Daniel, Felipe, Riq - e tive a felicidade de receber do Murilo algumas lições preciosas de jornalismo e de vida - quase todas elas involuntárias, bem no estilo dele, um mestre que desprezava os didatismos. Foi uma convivência curta (pouco mais de um ano), intensa e, às vezes, traumática. O humor ferino era um dos faróis de sua inteligência. Gostava de piadas rápidas, de chistes, de observações agudas. E posso me orgulhar de ter deixado para ele uma pequena pérola do meu repertório. Sei que ele gostou porque, bem ao seu estilo, foi divulgando para conhecidos o achado.

Desde o primeiro momento, ele me tratou como se fôssemos velhos amigos. A empatia foi imediata. Primeiro por telefone, depois quando fui recebido ao vivo na caótica sala que (raramente) ocupava durante uma das diversas reformas da redação do Jornal da Tarde. Exato um ano depois, comigo já contratado e morando em São Paulo, recordei a ele esse primeiro encontro e ouvi. "Viu, azar o teu".

Não foi azar. Foi uma das maiores sortes da minha vida ter convivido com Murilo Felisberto.

Márcio Pinheiro, gaúcho de Porto Alegre, colorado, 41 anos, jornalista profissional há 19. Trabalha atualmente na Zero Hora e trabalhou com Murilo Felisberto no Jornal da Tarde entre dezembro de 2001 e fevereiro de 2003.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Miss Abacaxi

Michelle Alves de Lima

Minha mãe disse que conheci o Mu antes, mas a verdade é que só me lembro dele a partir de algum dia de dezembro de 1989, quando tinha seis anos. Foi o dia em que virei a “miss abacaxi”.

Ia viajar com ele e a Carlota para os Estados Unidos, onde encontraria minha avó, Ignez. Era minha primeira viagem para fora do País, e provavelmente era também a primeira vez que o Mu levava uma criança para o exterior.

Lembro-me que cheguei ao aeroporto com minha mãe, meu avô e meus tios, no horário certinho (um pouco antes das três horas de praxe para vôos internacionais), mas havia esquecido algo bem importante: a autorização dos meus pais para eu viajar (minha mãe não sabia que precisava de um documento por escrito também assinado por meu pai, com firma reconhecida etc). Imagina como o Mu deve ter 'adorado' essa história...

Foi uma confusão só. Fomos à sala da Polícia Federal no aeroporto, e até convencermos o agente de plantão que não tinha como meu pai assinar o papel (naquela época ele já morava no exterior), tampouco como falar com ele pelo telefone (ele é surdo), foi um trabalhão. Se antes eu estava aos prantos por ficar um mês longe da minha mãe, naquela hora eu fiquei aos prantos com a possibilidade de não viajar com eles.

Problema resolvido, embarquei com o Mu – que naquele dia virou meu tio, pois o agente federal colocou no meu passaporte ‘a menor viajará acompanhada de seu tio’. E ganhei um apelido, pois o Mu descobriu que era mais que uma mala que ele estava levando para Nova York. Era a Miss abacaxi.

***
‘Para’ o Mu

O Mu dizia que a gente (o Ilan, meu editor) dava muita importância para essa história de gastronomia. “Imagina, lançar um caderno só com esse assunto”, ele falava. Mas o Mu bem que lia o Paladar. E o pior é que ele não comentava nada, então eu não sabia se ele tinha gostado ou não (só depois, lendo previamente os textos deste livro, descobri que essa era uma característica do Mu-jornalista, versão dele que eu quase não conheci).

A última matéria que fiz que ele leu, sobre comida de avião, parece que ele gostou. No dia em que ela foi publicada, liguei para minha avó para contar e ela disse que o Mu já tinha ligado e até elogiado (do jeito dele, claro).

Feliz, fui ligar para ele para “colher os louros” e também combinar de almoçar no dia seguinte. 

O almoço não deu certo, pois ele estava se sentindo mal, já tinha até cancelado o programa dele no Spot (que era sagrado, diga-se de passagem), e no dia seguinte não estaria disposto (quatro dias depois do meu telefonema, ele foi internado). Perguntei se ele tinha lido a matéria, apesar de já saber a resposta. Quando estava com o ouvido pronto para ouvir os elogios e receber uma massagem no ego, ele disse: “Li, sim. Mas ‘pra’, Mi? Que história é essa? Ta desistindo?”.
O Ilan já tinha ligado para o Mu *.

* Eu nunca tinha usado ‘pra’ em uma matéria. Justo esta vez, que fiz uma matéria de três páginas, inventei de usar ‘pra’ no lugar de ‘para’ ‘pra’ dar uma ‘descontraída’ no texto. Já tinha visto em outros textos – ok, não no Paladar – e achei que não teria problemas. Quando o Ilan, meu editor, viu os ‘pras’, me chamou a atenção por cada um deles. Substituiu por para, claro, e depois contou para o Mu, que ficou decepcionadíssimo.

Eu nem tive tempo de contar para ele que eu não estava mais usando ‘pra’. Duas semanas depois, o Mu nos deixou...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Murilo, como você me faz uma dessa?

Luiz Américo Camargo
   Ele chegava aos domingos quase sempre num mau humor épico. Nunca entendi por que, ele não me parecia do tipo que se queixasse de trabalhar até tarde, ou no fim de semana. Entrava com seu passinho miúdo, ia até a mesa ler os jornais. Lá do meu canto, eu via a figura franzina despontando, e prosseguia as tarefas. Voltava os olhos para minha tela do computador, e começava a contar, mentalmente: um, dois, três... Quando chegava no dez, ou pouco depois disso, era fatal. O contínuo já estava atrás de mim, avisando: "O Murilo quer falar com você". Eu já sabia, e sofria por tudo. A chegada dele, os dez segundos contados, os vinte passos até sua mesa, e ia ensaiando mentalmente uma fala para que a voz não falhasse, respirando fundo para manter a calma, moldando um rosto levemente sorridente.
“Tudo bem, Murilo?” Ele folheava os jornais, a expressão de tédio. Abria uma página do JT, claro que da minha editoria, dava um tapinha no papel com as costas da mão e me dizia: “Luiz Américo, como é que você me faz uma dessa?”. E eu não entendia o que tinha feito de errado, e sabia que ficaria pior se perguntasse. Terminado o econômico e enviesado diálogo, eu retornava ao meu canto, tentando entender onde tinha falhado ou que raio de incongruência havia entre o que tinha sido publicado e o que estava na cabeça dele.
O diretor de redação que eu conheci era um sujeito difícil. No nosso primeiro contato, eu na sala dele, minha impressão inicial foi a de que ele tinha muita idade, mas não sabia precisar quantos anos. E no entanto tinha os olhos faiscantemente juvenis. Falava manso e tinha um dandismo já tão bem incorporado que não soava como afetação. "Não trouxe nada seu para eu ler?". Eu tinha numa pasta um texto de quatro páginas, um perfil de Malcolm Forbes. Ele leu, e perguntou, com um riso irônico: "Não falou nada de homossexualismo? Aquelas motos, aquelas roupas de couro...". Não disse que gostou mas foi logo explicando qual era o salário. O homem que criou o Jornal da Tarde havia me contratado. E eu saí da sala sem saber se ele era velho, ou se era jovem, e se era possível alguém com tanta história dar a impressão de que tudo aquilo - o JB, o JT, a DPZ - não tinha sido com ele.
Ele me achava triste, sério. Era quase um bordão. "Luiz Américo... sorria." E eu, que não sou nem tão sério e nem tão triste, me intimidava porque ele ia fundo naquilo que eu mais detestava em mim nos tempos de criança. O garoto calado, sério, triste. A construção feita ao longo dos anos, do homem seguro, tranqüilo, tinha uma fenda. E era por ali que ele olhava.
Murilo foi marcante pelo que disse, mas eu lamento, de verdade, pelo que ele não disse. Gostaria de ter sido interlocutor em mais conversas, de ter compartilhado mais opiniões. De ter levado mais broncas diretas, e não carraspanas indiretas, do tipo “Fulano, avisa o Luiz Américo que não é mais para fazer assim ou assado”- estando eu a um metro dele. Um dia, ele sentou do meu lado, tirou a Montblanc do bolso, apanhou uma folha de papel e explicou: “Luiz Américo, quando você for desenhar um abre com sub-retranca, faz assim...”. E rabiscou duas ou três soluções que me abriram um mundo de possibilidades de diagramação. Outras vezes eu quis outras lições, mas ele não dava. Regulava, sem dó. Só quando ele queria, e mantinha o controle absoluto dessa relação, creio que com todos.
Num outro dia, me vendo com um CD da Gran Partita, de Mozart, pegou o disco, leu os créditos atentamente, me devolveu com um sorriso sutil. Dias depois, apareceu do nada, eu no meio do fechamento, bateu no meu ombro e disse: “Sabe o que a Audio Review (ou outra revista, não lembro qual) escreveu sobre essa versão que você tem? Fuja!”. Deu as costas e se afastou dando risada. Era assim.
Deixamos de trabalhar juntos e eu raramente falava com o Murilo. Mas sabia das notícias pelos amigos. Precisei me afastar dele para que lembranças de maus humores, mágoas e birras se dissipassem. Viraram histórias. Foi quando eu entendi que havia convivido com um gênio, que não podia ser julgado pelos padrões normais de sociabilidade.
Depois nos encontramos algumas vezes, por acaso: na rua, na livraria, no restaurante. E foi sempre muito bom. Gosto de pensar que ele falava bem de mim pelas costas (para usar uma de suas frases), mas não deu tempo de tirar a limpo. Murilo, como é que você me faz uma dessa?

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Yolanda

Querida Carlota e amado Antônio:

Se eu quisesse representar o homem “tal como ele é” precisaria de uma mescla de linhas tão desconcertantes para sua configuração que... o resultado seria uma confusão a tocar todos os limites das desconfigurações. Paul Klee.

Pensando Murilo, apoiada em Klee, acrescentaria espaços atemporais para transitarem o germe do homem que renasce, a razão do homem que permanece e a sabedoria do homem que semeia.

“Les yeux fertiles” – descobridor de talentos, impulsiona-os a descobrirem suas forças destinais;

“Tout a la coleur de aurora!” – ícone lendário sustenta a novidade a solidez, permitindo que imagens e linguagens se encontrem na simplicidade, para serem belas e verdadeiras;

“Avec le feu d’um chanson sans fausse note” – o mito rege os afortunados jornalistas daquele tempo e lugar, ali abrem-se vias renovadas que nos provocam e inspiram à renovação para admirar o novo.

Murilo feito dos “possíveis”:

Vivemos sempre num clima de bondade, amor, criação, respeito, à procura de inovação: você na linguagem escrita e visual; eu na linguagem pictórica. Madrugadas a dentro, com nossa casa sempre cheia de amigos, discutindo jornal, manchetes, fatos, cinema, arte, teatro etc..

Murilo jornal/ Murilo revista, era uma composição harmoniosa tão forte, que indagaram a ele no Jornal do Brasil se eu era uma revista ou um jornal.

O Diurno - carismático, poeta, músico, escritor, narrador, leitor [com seu jornal sempre debaixo do braço] caricaturista, pai, avô, amigo, companheiro, mestre; capaz de ver no outro, encurralado num inferno, pontos fracos e fortes, de onde tirava e criava histórias, caricaturas, frases, feitas com uma inteligência fina cheias de humor, simbolismo e dignidade, isuspeitáveis.

O Noturno - o construtor e autor de idéias ímpares originais, apaixonado pelo que fazia. Catalisa com competência o grupo de jovens jornalistas, fantasticamente criativos, sensíveis, de muita garra, responsáveis por uma imprensa aniquiladora da mediocridade, da mecanicidade. Voila! o marco da nova era no jornalismo brasileiro, o JT [Jornal da Tarde]. 
Mu, o sempre lembrado, o grade paradoxo.

Tive o privilégio de ser seu “Guia de Passagem” na sua derradeira hora. Seu corpo na entrega sem medo passou para um mundo mais longínquo, adormeceu suavemente e seus restos mortais foram entregues ao Fogo Sagrado. Partiu mas deixou gravada impressões indeléveis.

Seu neto “ Mandarim” olha para o céu e diz para sua avó: - “ o Murilo está naquela estrela!”, apontando com o dedinho.

Mu, abraço da Yo.


sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Será...?

Fernão Mesquita

Tenho um amigo que, toda vez que lê um jornal, balança a cabeça e sai dizendo: “O mundo não está para os exigentes; só vão sobrar os ratos e as baratas”...

Murilinho era dos mais exigentes.

Não escolhia caminhos fáceis.

Pra ser exato, escolheu um dos mais difíceis: fazer uma obra nova todos os dias, das fundações ao acabamento, com o concurso de um bando enorme de pessoas – incontrolável como os humores humanos – e lutando exasperadamente para que cada uma delas saísse perfeita.

Sísifo perde...

Tem gente que pensa que ele era apenas o portador de um dom.

Mas não foi tão fácil assim.

O que ele recebeu “de graça” não foi mais que uma inequívoca vocação e o aguçado senso estético que deus lhe deu e ele tratou de cultivar. O resto, aquela incrível capacidade de identificar e reunir todos os diferentes talentos necessários para produzir o jornalismo-arte que fez dele uma figura central da história da profissão em nossa geração, foi arduamente construído.

Naquela sua ânsia de perfeição, Murilinho não economizava esforço. Aquela pilha de jornais e revistas do mundo inteiro que ele carregava tão constantemente que se tornou indissociável da memória da sua figura, e que incluía sempre recém nascidos desconhecidos até nas vizinhanças de onde tinham sido gerados, era a ganga no meio da qual ele garimpava incansavelmente as pequenas jóias da profissão.

Onde -- diabos! -- ele ficava sabendo da existência delas em plena era do papel, quando a informação ainda era transmitida quase manualmente, num país totalmente fechado às importações, ninguém sabe.

Mas era indisfarçável que era essa busca que punha em funcionamento a fabrica de endorfina dele.

Murilinho escarafunchava o mundo das publicações à procura de novas formas, novos conteúdos ou novas maneiras de combinar os dois, com a sofreguidão e a meticulosidade dos viciados. Acho que gastava mais do que ganhava para se dar esse luxo. Em compensação, nada do que se experimentava na arte de contar histórias ou na forma de apresentá-las escapava do seu crivo.

Como todo homem com esse nível de intensidade de atividade interior, tinha pouca paciência para as formas ritualísticas de representação do ser humano. Política, instituições, abstrações em geral – descartadas as suas manifestações mais elevadas, como a música, cujas entranhas ele destrinchava até à minúcia da vibração sonora – não faziam mais que irritá-lo e aborrecê-lo.
Não é pra menos...

O que lhe interessava mesmo eram as pessoas e as relações entre elas. E, mais que tudo, as emoções que umas despertavam nas outras. Algo que o fascinava tão completamente que não resistia à tentação de provocar essas emoções só para poder vê-las se manifestando...

Essa indulgência tinha o seu lado fértil: se, muito antes do mundo em rede, Murilinho sabia quem era quem – e o que sabia fazer -- nas mais longínquas redações do planeta, que dirá nas do Brasil!

Foi assim que ele foi pinçando, um a um, em todos os quadrantes, os talentos dispersos por este eterno gigante adormecido, para juntá-los, todos, numa mesma sala, iniciá-los nas artes que dominava, e espicaçá-los para que uns multiplicassem a força criadora dos outros.

Foi assim que ele mudou o jornalismo brasileiro. Foi assim que ele trouxe as pessoas, os indivíduos, para o centro da praça publica que é o jornal, inventou uma nova maneira de servi-las e criou um jeito novo da imprensa se relacionar com o publico. Foi assim que ele fez do Jornal da Tarde a fonte de inspiração e o plantel que abasteceu de talentos todas as redações da imprensa e da televisão brasileiras que, depois, foram surgindo ao longo do caminho que ele desbravou.

“A dor dói como dói, e não em função da causa que a produziu”, diz o poeta. As do Murilinho, portanto, não foram maiores que as dos outros. As minúcias da sua saga pessoal – a glória, o exílio, o resgate e o proverbial “assassínio” do criador pelas mais reles entre as suas criaturas – se dissolverão rapidamente no ar.

O que ele fez é o que vai ficar...

O que nós assistimos juntos, com a curiosidade e o interesse pelo processo que nos envolvia que convém aos jornalistas, foi a realização do vaticínio que um dos grandes gênios da nacionalidade ditara, três ou quatro décadas antes, através das páginas do próprio JT do Murilinho. Em meio à generalizada conflagração ideológica que chacoalhava o século XX – mais acirrada do que em qualquer outra parte, dentro das redações – Nelson Rodrigues previu “A Ascensão dos Idiotas” que, tendo começado a desconfiar de que eram maioria, vinham perdendo a humildade e a vontade de aprender e alimentando um arrogante orgulho de sua ignorância que acabaria por levá-los a subjugar o mundo pela força.

Não deu outra...

Hoje, para alem da saudade das divertidas conversas em torno de nossas indignações comuns pelo que vai pelo mundo nos almoços em cantos especiais da cidade que ele descobria e revelava com a mesma volúpia de surpreender com que apresentava a beleza de uma nova tipologia, um detalhe de arquitetura ou o refinamento de um autor ainda desconhecido, sinto uma vaga sensação de logro. Tem uma pulgazinha atrás da minha orelha que insiste em me cochichar a idéia de que, no fundo, no fundo, o Murilinho foi embora de propósito.

Ele não se conformava com esse triunfo da boçalidade!