Carlos Brickmann
Tudo bem, jornalismo é informação. Mas foi o Murilinho que me mostrou uma outra faceta do que deve ser a imprensa: além de mexer com a imagem dos outros, para o bem ou para o mal, precisa também cuidar da própria imagem.
Eu era editor de Internacional do Jornal da Tarde. Fechávamos de madrugada, com uma esticada pela manhã; e o jornal ia às bancas por volta de meio-dia.
Apareceu-me uma notícia interessante: com a alta do preço dos combustíveis, o Japão estava desenvolvendo um novo navio petroleiro, especialmente econômico - um veleiro. Era um veleiro supermoderno, com localização via satélite, velas controladas por computador, motores auxiliares - se a velocidade caísse abaixo de determinado limite, os motores entrariam em ação. A idéia é que mais da metade da viagem fosse realizada só com os ventos.
Mais de cem anos depois, a volta dos veleiros! Enchi meia página com uma foto do Cutty Sark, um veloz veleiro inglês que fazia a rota da China. E preparei uma matéria sobre o papel dos veleiros nas comunicações e na guerra.
Por volta das três da manhã, o Murilinho chegou à Redação. Olhou a página, gostou da idéia, não gostou da diagramação. Resolveu mudar tudo, até a posição do jornal: deixou a página na horizontal, com o veleiro ocupando todo o espaço. E a matéria corria em volta do navio, uma linha avançando até a ponta da vela, outra um pouco menor, outra pequenininha, aí uma enorme - e, naturalmente, sem hífens, que o Murilinho não gostava disso.
O diagramador ficou mais de duas horas calculando a matéria linha por linha, cada uma com um tamanho diferente. Eu peguei a matéria pronta e refiz tudo nas novas medidas - fui terminar lá pelas nove da manhã.
Saiu linda. Mesmo assim, fui procurar o Murilo e mostrar-lhe que a matéria era ilegível: ninguém teria paciência de virar o jornal de lado e ler uma linha de 142 toques, depois outra de três toques, depois outra com 27. Para minha surpresa, ele concordou.
"Ninguém vai ler, Carlinhos. Mas todo mundo vai dizer: veja só como este jornal é bem feito".
Bingo: reforçava-se a idéia do mercado de que o Jornal da Tarde tinha um acabamento impecável, que era muito bem feito. E, cá entre nós, ninguém perdeu nada ao não ler a matéria sobre os veleiros. No fundo, não tinha importância nenhuma. E o tal veleiro japonês nunca mais apareceu no noticiário.
segunda-feira, 25 de agosto de 2008
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Triste
Monja Coen
Fico me lembrando de sua figura esbelta e pálida, sempre carregando um guarda-chuvas, mesmo nos dias de sol.
Fico me lembrando de sua figura esbelta e pálida, sempre carregando um guarda-chuvas, mesmo nos dias de sol.
Quando fui pedir emprego no JT, isso nos idos de 1968, ele me recebeu em sua sala. Fui poucas vezes a sua sala, talvez umas duas ou três vezes durante todo o pouco tempo (menos de três anos) em que trabalhei no JT.
Há alguns poucos anos, telefonei para ele. Murilo estava no JT novamente. Talvez fosse no ano 2000? Não pude ir.
Aprendi a respeitá-lo e de certa forma temê-lo. Por que? Eu não saberia dizer.
Depois de meses como estagiária, éramos três meninas - Murilo se inspirara nas meninas do JB do Rio - um dia tomamos coragem e fomos falar com ele. Eu estava muito nervosa, com vinte e um anos de idade, sem nenhuma experiência empregatícia, ter de ir falar com alguém se me contratava ou não pois estava chegando no pico do meu estresse.
Ele ouviu, sorriu, levantou os olhos e disse : “Mas vocês estão sendo contratadas este mês.”
Alguns meses mais tarde tivemos censura no jornal. E quanto todos nós repórteres decidimos fazer greve contra a censura, Murilo ficou com Dr. Rui e talvez mais uma ou duas pessoas e fecharam juntos todo o jornal.
Alguns meses mais tarde tivemos censura no jornal. E quanto todos nós repórteres decidimos fazer greve contra a censura, Murilo ficou com Dr. Rui e talvez mais uma ou duas pessoas e fecharam juntos todo o jornal.
Há alguns poucos anos, telefonei para ele. Murilo estava no JT novamente. Talvez fosse no ano 2000? Não pude ir.
Fiquei na saudade.
Havia em sua vida um piano. Será que eu o ouvi tocar, que o vi tocar um piano de cauda, negro?
Ou serão apenas fragmentos de memória perdidos nas histórias que me contavam?
Saudades do seu sorriso, da pele clara, dos dedos longos e da inteligência brilhante que parecia ver através de cada um de nós.
No meu caminho a passagem pela redação do JT, chefiada por ele, foi essenciall para a abertura de consicência da realidade e para minha transformação, hoje, em monja zen budista.
Profundos agradecimentos. Murilo Feliz berto.
Ou serão apenas fragmentos de memória perdidos nas histórias que me contavam?
Saudades do seu sorriso, da pele clara, dos dedos longos e da inteligência brilhante que parecia ver através de cada um de nós.
No meu caminho a passagem pela redação do JT, chefiada por ele, foi essenciall para a abertura de consicência da realidade e para minha transformação, hoje, em monja zen budista.
Profundos agradecimentos. Murilo Feliz berto.
Descanse em paz. Missão cumprida.
Formou jornalistas, formou pessoas, formou seres humanos integros e bons através de seu exemplo, de sua vida, manifesta em seu andar, seu olhar, sua fala mansa, baixa, firme, correta. Valeu.
Sempre indo, indo, tendo ido e já tendo chegado.
Sempre indo, indo, tendo ido e já tendo chegado.
Na Terra Pura dos seres iluminados.
Mãos em prece
Monja Coen
(naqueles tempos Claudia Batista)
Mãos em prece
Monja Coen
(naqueles tempos Claudia Batista)
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Minhas Histórias do Mu
Toní Rodrigues
1- O RAFE MISTERIOSO
Uma das histórias do Mu, ele morreu sem saber, ou pelo menos sem saber a parte engraçada. Aconteceu no 5º andar da DPZ mais ou menos em 1987. Eu, o Carlão, o Delba e a Margô éramos assistentes lá, junto com o Jairo. O Mú ainda fazia dupla com o Toledão, o único dos aqui citados que eu não sei se tomou parte na trama.
Como todo mundo sabe, o Mu fazia uns rafinhos em papel manteiga bem pequenininhos, porém muito detalhados e cheios de informações, instruções e referências. Ia de tudo alí, desde o tipo a ser utilizado, com o tamanho, o corpo e a cor, até dicas do tipo “veja o livro do Lubalin”, tudo mais ou menos costurado por um desenho no traço tremidinho do Mu.
Um dia ao voltar do almoço, encontro na minha mesa uma revista Idea com um página marcada e nela, presa com durex, um dos rafinhos do Mu como os descritos acima e uma folha de papel sulfite com um título (supostamente do Toledão) para ser marcado no anúncio. Até aí tudo bem, mas ao ler o “job” melhor fui vendo que o Mu estava me pedindo um layout extremamente trabalhoso (dias pré Macintosh, tudo tinha que ser feito artesanalmente) e num canto do rafinho tinha o aviso fatal: “urgente, para as 3 horas”.
Entrei em pânico e fui falar com ele, perguntar se o prazo era aquele mesmo. A primeira coisa que ele me disse foi “Como assim, Toni? Eu não te passei trabalho nenhum...” voltei pra minha mesa, peguei tudo e mostrei pra ele, que imediatamente ficou pasmo.
Eu ainda não tinha percebido, mas nessa altura todo mundo em volta já estava saindo de fininho. Ele olhou pra mim, olhou pro rafe, olhou pra mim, olhou pro rafe, tirou os óculos, esfregou os olhos, olhou de novo pro rafe e finalmente me disse pra desencanar daquilo. Disse que era algo que ele tinha feito num outro dia, mas que o anúncio tinha sido descartado e que alguém deve ter achado aquilo por alí e colocado na minha mesa.
Abriu uma gaveta e fechou tudo lá dentro. Eu disse ok e voltei pra mesa. Passaram uns minutos e ouvi um sussurro: era o Delba (acho) me chamando pro café, onde todos riam de rolar. O rafe era falso, obra do talento de falsário do Carlão. O plano era eu ter um chilique com o prazo, mas ninguém contava que eu fosse mostrar o rafe pro Mu. Quando mostrei, todos prenderam a respiração, achando que tudo tinha ido pro caralho, mas ao perceberem que tinham enganado até ele, só restou sair de cena pra poder rir. Ficamos em dúvida se contávamos pro Mu, ou não. Achamos melhor não, afinal éramos crianças e ficamos com mêdo. Mas acho que se a gente tivesse contado ele teria dado risada junto com a gente.
2 - O JEITO DE PRONUNCIAR O MEU NOME
Meu nome, como já devem ter adivinhado, é Antonio, mas há muito tempo todo mundo que me conhece, fora do mundo da propaganda, me chama de Toní. No mundo da propaganda, por obra e graça do Mu, todos me chamam de Toní. Nem eu, nem ninguém nunca entendeu a razão disso, o Mu nunca explicou, mas de tanto insistir pegou. A tal ponto que quando minha mulher ligava pra mim e o telefone era atendido por outra pessoa, ela era frequentemente corrigida: “Você quer dizer Toní, né?”. Um dia, alguém perguntou pro Mu porque ele me tinha mudado meu nome de Toni para Toní e se isso não me incomodava, ao que o Mu teria respondido: “Se incomodar porquê? Por quê ele vai querer ser um Toni qualquer quando pode ser Toní?” Isso foi um cumprimento e tanto.
3 - O DATILÓGRAFO MAIS RÁPIDO DO MUNDO
Logo que a gente abriu o 7º andar, o Mu e eu fomos brindados com uma estagiária, daquelas que ganhavam estágio por serem filhas de cliente. Ainda não tinha redator trabalhando com a gente, o Stalimir estava pra vir da DPZ Rio (ele acabou indo pra W e o Fernandinho Teperdjian foi contratado, mas isso é outra história), mas enquanto isso não acontecia o Mu tinha a ajuda do Rique Freire, do Ruizão ou do Toledão, que continuavam no 5º andar. Mas ele também fazia redação (claro, pô, era o Mu) e pra isso tinha lá uma maquininha Olivetti Lettera 32. A nossa estagiária trouxe de casa a última moda entre os redatores da época: a primeira máquina de escrever elétrica pequena da Olivetti, que não era um trombolhão como aquelas IBMs de esfera e era o sonho de consumo de 9 entre 10 redatores da era pré-Word. Então ela começou a encher o saco do Mu, dizendo que não tinha mais cabimento se usar numa agência charmosa e moderna como a DPZ uma máquina de escrever como a que ele estava usando, que ainda por cima era muuuuuuuito mais lenta. O Mu então abaixou os óculos para a ponta do nariz e me vendo, deu um sorrisinho sacana. A seguir atacou as pretinhas com uma velocidade de metralhadora, que eu nunca tinha visto até então e datilografando com 2 dedos, catando milho, em menos de 1 minuto escreveu um texto mais ou menos do tamanho deste aqui, não me lembro mais sobre o que. A estagiária nunca mais reclamou. E depois disso eu pedi várias vezes para o Mu que fizesse aquilo de novo para que outras pessoas vissem como ele era rápido. Ele nunca me atendeu.
4 - NOSSO TIPO INESQUECÍVEL
O Mu era um grande conhecedor de tipografia, um verdadeiro expert nesta arte perdida.
Toda vez que o Mu pegava um job ele exercia em primeiro lugar o seu pensamento tipográfico. Que tipo ele ia escolher para compor o anúncio? Na era pré-Mac, pedir variações tipográficas de um título e um texto significava um volume bem grande de trabalho. Invariavelmente eu e os outros assistentes penávamos com isso, tinhamos que pedir os tipos em fotocomposição e compor o texto simulado com cópias fotográficas, quase sempre tendo que montar e remontar tudo várias vezes na base da faca, tesoura e cola benzina, abrindo o entrelinhamento e o espaço entre letras à mão, até satisfazer o Mu. Isso usando sempre três ou quatro famílias previamente escolhidas e não raro com pesos diferentes em cada uma. Às vezes ele se apaixonava por uma determinada fonte e a gente tinha que fazer de tudo com ela pra ele ver, eu ainda me lembro bem da paixão dele pela Benbo e do desprezo que teve pela Copperplate, que achava deselegantérrima. O louco é que na maioria das vezes todo esse esforço acabava num “vamos usar Futura Bold mesmo...” e isso me levava ao desespero. Porque diabos ele tinha me feito ter tanto trabalho pra acabar compondo tudo em Futura Bold? Só muito tempo depois eu saquei que ele estava era nos ensinando.
Eu e ele tinhamos uma brincadeira em comum, quando o job sobrava pra mim. Eu perguntava pra ele qual era o tipo inesquecível dele naquela semana, numa alusão à coluna “Meu tipo inesquecível” da antiga Seleções. Ele adorava. Da primeira vez que eu perguntei ele ficou surpreso e me perguntou como um garoto como eu conhecia aquela velharia, não lembro o que eu respondi, mas a bincadeira continuou. Até que teve um dia em que depois de uma dessas experimentações tipográficas com um tipo que parecia lindo no catálogo eu e ele chegamos a conclusão de que era melhor mesmo usar Futura Bold. Então eu disse assim: “É, Murilo, em certos tipos não se pode confiar...”. O Mu teve um ataque de riso e passou a repetir isso a torto e a direito, sempre que me via. Acho que ele gostou mesmo é porque eu não tinha dito aquilo sem pensar no óbvio duplo sentido da frase, que ele, sendo quem era, transformou numa coisa muito maior e melhor.
1- O RAFE MISTERIOSO
Uma das histórias do Mu, ele morreu sem saber, ou pelo menos sem saber a parte engraçada. Aconteceu no 5º andar da DPZ mais ou menos em 1987. Eu, o Carlão, o Delba e a Margô éramos assistentes lá, junto com o Jairo. O Mú ainda fazia dupla com o Toledão, o único dos aqui citados que eu não sei se tomou parte na trama.
Como todo mundo sabe, o Mu fazia uns rafinhos em papel manteiga bem pequenininhos, porém muito detalhados e cheios de informações, instruções e referências. Ia de tudo alí, desde o tipo a ser utilizado, com o tamanho, o corpo e a cor, até dicas do tipo “veja o livro do Lubalin”, tudo mais ou menos costurado por um desenho no traço tremidinho do Mu.
Um dia ao voltar do almoço, encontro na minha mesa uma revista Idea com um página marcada e nela, presa com durex, um dos rafinhos do Mu como os descritos acima e uma folha de papel sulfite com um título (supostamente do Toledão) para ser marcado no anúncio. Até aí tudo bem, mas ao ler o “job” melhor fui vendo que o Mu estava me pedindo um layout extremamente trabalhoso (dias pré Macintosh, tudo tinha que ser feito artesanalmente) e num canto do rafinho tinha o aviso fatal: “urgente, para as 3 horas”.
Entrei em pânico e fui falar com ele, perguntar se o prazo era aquele mesmo. A primeira coisa que ele me disse foi “Como assim, Toni? Eu não te passei trabalho nenhum...” voltei pra minha mesa, peguei tudo e mostrei pra ele, que imediatamente ficou pasmo.
Eu ainda não tinha percebido, mas nessa altura todo mundo em volta já estava saindo de fininho. Ele olhou pra mim, olhou pro rafe, olhou pra mim, olhou pro rafe, tirou os óculos, esfregou os olhos, olhou de novo pro rafe e finalmente me disse pra desencanar daquilo. Disse que era algo que ele tinha feito num outro dia, mas que o anúncio tinha sido descartado e que alguém deve ter achado aquilo por alí e colocado na minha mesa.
Abriu uma gaveta e fechou tudo lá dentro. Eu disse ok e voltei pra mesa. Passaram uns minutos e ouvi um sussurro: era o Delba (acho) me chamando pro café, onde todos riam de rolar. O rafe era falso, obra do talento de falsário do Carlão. O plano era eu ter um chilique com o prazo, mas ninguém contava que eu fosse mostrar o rafe pro Mu. Quando mostrei, todos prenderam a respiração, achando que tudo tinha ido pro caralho, mas ao perceberem que tinham enganado até ele, só restou sair de cena pra poder rir. Ficamos em dúvida se contávamos pro Mu, ou não. Achamos melhor não, afinal éramos crianças e ficamos com mêdo. Mas acho que se a gente tivesse contado ele teria dado risada junto com a gente.
2 - O JEITO DE PRONUNCIAR O MEU NOME
Meu nome, como já devem ter adivinhado, é Antonio, mas há muito tempo todo mundo que me conhece, fora do mundo da propaganda, me chama de Toní. No mundo da propaganda, por obra e graça do Mu, todos me chamam de Toní. Nem eu, nem ninguém nunca entendeu a razão disso, o Mu nunca explicou, mas de tanto insistir pegou. A tal ponto que quando minha mulher ligava pra mim e o telefone era atendido por outra pessoa, ela era frequentemente corrigida: “Você quer dizer Toní, né?”. Um dia, alguém perguntou pro Mu porque ele me tinha mudado meu nome de Toni para Toní e se isso não me incomodava, ao que o Mu teria respondido: “Se incomodar porquê? Por quê ele vai querer ser um Toni qualquer quando pode ser Toní?” Isso foi um cumprimento e tanto.
3 - O DATILÓGRAFO MAIS RÁPIDO DO MUNDO
Logo que a gente abriu o 7º andar, o Mu e eu fomos brindados com uma estagiária, daquelas que ganhavam estágio por serem filhas de cliente. Ainda não tinha redator trabalhando com a gente, o Stalimir estava pra vir da DPZ Rio (ele acabou indo pra W e o Fernandinho Teperdjian foi contratado, mas isso é outra história), mas enquanto isso não acontecia o Mu tinha a ajuda do Rique Freire, do Ruizão ou do Toledão, que continuavam no 5º andar. Mas ele também fazia redação (claro, pô, era o Mu) e pra isso tinha lá uma maquininha Olivetti Lettera 32. A nossa estagiária trouxe de casa a última moda entre os redatores da época: a primeira máquina de escrever elétrica pequena da Olivetti, que não era um trombolhão como aquelas IBMs de esfera e era o sonho de consumo de 9 entre 10 redatores da era pré-Word. Então ela começou a encher o saco do Mu, dizendo que não tinha mais cabimento se usar numa agência charmosa e moderna como a DPZ uma máquina de escrever como a que ele estava usando, que ainda por cima era muuuuuuuito mais lenta. O Mu então abaixou os óculos para a ponta do nariz e me vendo, deu um sorrisinho sacana. A seguir atacou as pretinhas com uma velocidade de metralhadora, que eu nunca tinha visto até então e datilografando com 2 dedos, catando milho, em menos de 1 minuto escreveu um texto mais ou menos do tamanho deste aqui, não me lembro mais sobre o que. A estagiária nunca mais reclamou. E depois disso eu pedi várias vezes para o Mu que fizesse aquilo de novo para que outras pessoas vissem como ele era rápido. Ele nunca me atendeu.
4 - NOSSO TIPO INESQUECÍVEL
O Mu era um grande conhecedor de tipografia, um verdadeiro expert nesta arte perdida.
Toda vez que o Mu pegava um job ele exercia em primeiro lugar o seu pensamento tipográfico. Que tipo ele ia escolher para compor o anúncio? Na era pré-Mac, pedir variações tipográficas de um título e um texto significava um volume bem grande de trabalho. Invariavelmente eu e os outros assistentes penávamos com isso, tinhamos que pedir os tipos em fotocomposição e compor o texto simulado com cópias fotográficas, quase sempre tendo que montar e remontar tudo várias vezes na base da faca, tesoura e cola benzina, abrindo o entrelinhamento e o espaço entre letras à mão, até satisfazer o Mu. Isso usando sempre três ou quatro famílias previamente escolhidas e não raro com pesos diferentes em cada uma. Às vezes ele se apaixonava por uma determinada fonte e a gente tinha que fazer de tudo com ela pra ele ver, eu ainda me lembro bem da paixão dele pela Benbo e do desprezo que teve pela Copperplate, que achava deselegantérrima. O louco é que na maioria das vezes todo esse esforço acabava num “vamos usar Futura Bold mesmo...” e isso me levava ao desespero. Porque diabos ele tinha me feito ter tanto trabalho pra acabar compondo tudo em Futura Bold? Só muito tempo depois eu saquei que ele estava era nos ensinando.
Eu e ele tinhamos uma brincadeira em comum, quando o job sobrava pra mim. Eu perguntava pra ele qual era o tipo inesquecível dele naquela semana, numa alusão à coluna “Meu tipo inesquecível” da antiga Seleções. Ele adorava. Da primeira vez que eu perguntei ele ficou surpreso e me perguntou como um garoto como eu conhecia aquela velharia, não lembro o que eu respondi, mas a bincadeira continuou. Até que teve um dia em que depois de uma dessas experimentações tipográficas com um tipo que parecia lindo no catálogo eu e ele chegamos a conclusão de que era melhor mesmo usar Futura Bold. Então eu disse assim: “É, Murilo, em certos tipos não se pode confiar...”. O Mu teve um ataque de riso e passou a repetir isso a torto e a direito, sempre que me via. Acho que ele gostou mesmo é porque eu não tinha dito aquilo sem pensar no óbvio duplo sentido da frase, que ele, sendo quem era, transformou numa coisa muito maior e melhor.
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Conduzindo Mr. Murilo
Alexandre
Fiquei muito feliz por para prestar homenagem a um grande amigo e pessoa muito querida que é Murilo Felisberto.
A maioria das nossas viagens felizmente foram muito alegres e bonitas. Murilo sempre me perguntava das novidades. Por eu ser motorista, muitas pessoas contam os acontecidos e eu às vezes tinha coisas para contar de nossos amigos.
Quando íamos para Lavras, os assuntos sempre começavam na divisa de São Paulo e Minas, com a mudança da cor do céu. Ele sempre ficava feliz com o azul de Minas Gerais e então falávamos dos nossos amigos Rafa, Luis, JP, Galináceo e etc.
O Murilo sempre queria que eu observasse o Rafa, os seus anéis, o comercial que ele participou para um amigo, o corte de cabelo feito em Nova York, etc., para que eu comentasse o que achava. Ele também sempre falava do seu apartamento, do barulho do elevador, dos vazamentos que o deixavam irritadíssimo, do ar condicionado que sempre dava algum problema. Mas o que o deixava preocupado e sempre antecipava a sua viagem era qualquer evento na Avenida Paulista, pelo motivo de as pessoas acabarem com o silêncio que ele tanto gostava.
A alegria e o breve descanso na hora do almoço sempre aconteciam num restaurante em Três Corações chamado o Rei da Traira, onde ele era bem conhecido. Com sua delicadeza, mas muito exigente, sempre queria comparar e qualificar um concorrente que o restaurante tinha em Lavras, cujo dono era muito mal educado, mas o prato era melhor preparado.
O que me deixou muito satisfeito foi uma viagem que fizemos para ver um piano em Sorocaba, onde ele achou a cidade muito bonita e limpa. Ele me contou que era uma pessoa realizada, desde os tempos do Jornal até a sua aposentaria, passando pela DPZ, no qual ele sempre falava com extrema alegria. Contou-me da felicidade que tinha em ter feito tudo o que ele gostava, tudo com amor e alegria.
Agradeço o privilégio de ter conhecido e poder ter convivido com o Sr. Murilo Felisberto, mesmo que em breves viagens. Tenho por ele muito carinho e respeito. Tenho também a certeza de que ele estará sempre conosco, nos jantares de quinta, nas rodas de publicitários e jornalistas e em minhas viagens.
Fiquei muito feliz por para prestar homenagem a um grande amigo e pessoa muito querida que é Murilo Felisberto.
A maioria das nossas viagens felizmente foram muito alegres e bonitas. Murilo sempre me perguntava das novidades. Por eu ser motorista, muitas pessoas contam os acontecidos e eu às vezes tinha coisas para contar de nossos amigos.
Quando íamos para Lavras, os assuntos sempre começavam na divisa de São Paulo e Minas, com a mudança da cor do céu. Ele sempre ficava feliz com o azul de Minas Gerais e então falávamos dos nossos amigos Rafa, Luis, JP, Galináceo e etc.
O Murilo sempre queria que eu observasse o Rafa, os seus anéis, o comercial que ele participou para um amigo, o corte de cabelo feito em Nova York, etc., para que eu comentasse o que achava. Ele também sempre falava do seu apartamento, do barulho do elevador, dos vazamentos que o deixavam irritadíssimo, do ar condicionado que sempre dava algum problema. Mas o que o deixava preocupado e sempre antecipava a sua viagem era qualquer evento na Avenida Paulista, pelo motivo de as pessoas acabarem com o silêncio que ele tanto gostava.
A alegria e o breve descanso na hora do almoço sempre aconteciam num restaurante em Três Corações chamado o Rei da Traira, onde ele era bem conhecido. Com sua delicadeza, mas muito exigente, sempre queria comparar e qualificar um concorrente que o restaurante tinha em Lavras, cujo dono era muito mal educado, mas o prato era melhor preparado.
O que me deixou muito satisfeito foi uma viagem que fizemos para ver um piano em Sorocaba, onde ele achou a cidade muito bonita e limpa. Ele me contou que era uma pessoa realizada, desde os tempos do Jornal até a sua aposentaria, passando pela DPZ, no qual ele sempre falava com extrema alegria. Contou-me da felicidade que tinha em ter feito tudo o que ele gostava, tudo com amor e alegria.
Agradeço o privilégio de ter conhecido e poder ter convivido com o Sr. Murilo Felisberto, mesmo que em breves viagens. Tenho por ele muito carinho e respeito. Tenho também a certeza de que ele estará sempre conosco, nos jantares de quinta, nas rodas de publicitários e jornalistas e em minhas viagens.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Murilo, som e luz
José Hamilton Ribeiro
(texto publicado na Folha de S. Paulo em 30/5/07)
Às 22h, num sábado, na Redação da Folha, não havia quase mais ninguém. Chega a notícia de que minha mãe tinha morrido. Naqueles tempos sem celular, quem é que poderia encontrar um repórter solteiro e com fama de boêmio?
- O Murilo. O Murilo sabe da vida dessa reportada toda.
Localizaram o Murilo e, em menos de uma hora, ele me achou na casa de um tio da minha namorada. Eu saí às pressas para arranjar um jeito de ir para o interior. Murilo ficou lá mais um tempinho.
Os ventos sopraram para outro lado, aquele meu namoro veio ao fim e, algum tempo depois, Murilo estava casando com a moça que conhecera naquela noite triste (para mim).
(Quando adolescente, Murilo, que era mineiro de Lavras, passou um tempo em Areado, também MG, onde sua tia - médica - clinicava. Ali andou peruando uma moreninha, mas os ventos sopraram de novo e quem casou com essa mineirinha fui eu...)
Murilo Agostini Felisberto morreu no dia 11, em São Paulo, aos 67 anos. Ele mexeu com o jornalismo no Brasil.
Murilo e eu começamos nesta mesma Folha, no fim dos anos 50, quando o Brasil, embalado por Juscelino, vivia tempos de otimismo, muita novidade e "bossa-nova". Isso afetou também o jornalismo. Coincidiu a chegada na Folha, nessa mesma época, de uma caipirada que, após "aprender" na casa, acabou indo para a frente na profissão: Sérgio Pompeu veio a ser redator-chefe na "Veja", Woyle Guimarães, diretor da Central Globo de Jornalismo, Sérgio de Souza, edtor de texto da "Realidade", Jósé Carlos Maranhão, diretor da "Quatro Rodas", Flávio Barros, diretor na editora Globo, Washington Novais, chefe do "Globo Repórter", Aloísio Biondi, diretor de vários jornais, com Joelmir Betting correndo por fora e fazendo a modernização do jornalismo econômico com o extermínio do economês, além de uns outros que preferiram ir ganhar a vida em campo diferente: Neil Ferreira na publicidade, Mauricio de Sousa nos quadrinhos, Renato Mazzei como embaixador.
Mais uns tantos que agora esqueci.
A Redação da Folha sempre foi nervosa, efervescente, mas aquela foi de fato uma fase assinalada. Murilo era uma referência no meio da turma. Andava com um maço de revistas americanas embaixo do braço, sabia de cor as "leis do jornalismo" (a maioria vinda dos EUA, mas naquele momento foram importantes para nós) e, dizia-se, também o expediente de qualquer jornal ou revista (que valesse a pena) do Brasil e do exterior. Além de ter sempre à mão o restaurante para a gente ir comer e conversar sem garçom chato por perto.
Nos anos 50, o jornalismo nosso era atrasadão. Os títulos, padronizados, burocráticos; o texto, repetitivo e maltratado; a "mancha" (espaço da página usado para informação), quadrada, sempre igual, "fechada na oficina", como se dizia. Murilo ajudou a implodir isso, primeiro na Folha, depois nas empresas do "Estadão", no "Jornal do Brasil", na Editora Abril.
Toda Redação tem a turma dos "exibidos" (os que aparecem para o público) e o pessoal da criação, da edição. Murilo era dos que apareciam pouco. Mesmo no tempo curtíssimo em que foi repórter, publicava raramente. Com excesso de autocrítica, não ficava satisfeito com o que fazia, jogava fora, sofria... Mas, quando entregava o texto, era coisa fina. Designado uma vez para cobrir o Dia da Aeromoça (num tempo em que aviões eram de luxo, saíam e chegavam na hora, e as comissárias eram "um avião" de beleza eterna), enquanto os outros jornais saíram com títulos como "Comemora-se amanhã o Dia da Aeromoça", o texto do Murilo tinha na cabeça: "Problema de aeromoça é que ela vai ser aerovelha...".
Hoje isso parece uma firula; na época, era pura subversão.
Sendo artista plástico (desenhava com facilidade incrível, até em guardanapo), gostando de música (tocava piano) e curtidor de som (a exigência na escolha da aparelhagem de som era quase uma excentricidade), via o jornal, a revista, a página em branco com um potencial artístico de tal forma que ficaram famosas pela beleza algumas das páginas e das capas que ajudou a fazer no "JT".
Robson Alves, diretor de arte da DPZ, agência onde Murilo trabalhou muito tempo, em seus intervalos jornalísticos, diz que a principal qualidade dele, para compor e dirigir equipes tão complicadas quanto as de reportagem ou de publicitários, era "combinar pessoas", juntar talentos, apesar de eventuais diferenças, para fazer um trabalho.
Murilo Felisberto era jornalista e artista. Deixa uma filha, Carlota, e um neto, Antônio. E um aperto no peito de um velho repórter.
(texto publicado na Folha de S. Paulo em 30/5/07)
Às 22h, num sábado, na Redação da Folha, não havia quase mais ninguém. Chega a notícia de que minha mãe tinha morrido. Naqueles tempos sem celular, quem é que poderia encontrar um repórter solteiro e com fama de boêmio?
- O Murilo. O Murilo sabe da vida dessa reportada toda.
Localizaram o Murilo e, em menos de uma hora, ele me achou na casa de um tio da minha namorada. Eu saí às pressas para arranjar um jeito de ir para o interior. Murilo ficou lá mais um tempinho.
Os ventos sopraram para outro lado, aquele meu namoro veio ao fim e, algum tempo depois, Murilo estava casando com a moça que conhecera naquela noite triste (para mim).
(Quando adolescente, Murilo, que era mineiro de Lavras, passou um tempo em Areado, também MG, onde sua tia - médica - clinicava. Ali andou peruando uma moreninha, mas os ventos sopraram de novo e quem casou com essa mineirinha fui eu...)
Murilo Agostini Felisberto morreu no dia 11, em São Paulo, aos 67 anos. Ele mexeu com o jornalismo no Brasil.
Murilo e eu começamos nesta mesma Folha, no fim dos anos 50, quando o Brasil, embalado por Juscelino, vivia tempos de otimismo, muita novidade e "bossa-nova". Isso afetou também o jornalismo. Coincidiu a chegada na Folha, nessa mesma época, de uma caipirada que, após "aprender" na casa, acabou indo para a frente na profissão: Sérgio Pompeu veio a ser redator-chefe na "Veja", Woyle Guimarães, diretor da Central Globo de Jornalismo, Sérgio de Souza, edtor de texto da "Realidade", Jósé Carlos Maranhão, diretor da "Quatro Rodas", Flávio Barros, diretor na editora Globo, Washington Novais, chefe do "Globo Repórter", Aloísio Biondi, diretor de vários jornais, com Joelmir Betting correndo por fora e fazendo a modernização do jornalismo econômico com o extermínio do economês, além de uns outros que preferiram ir ganhar a vida em campo diferente: Neil Ferreira na publicidade, Mauricio de Sousa nos quadrinhos, Renato Mazzei como embaixador.
Mais uns tantos que agora esqueci.
A Redação da Folha sempre foi nervosa, efervescente, mas aquela foi de fato uma fase assinalada. Murilo era uma referência no meio da turma. Andava com um maço de revistas americanas embaixo do braço, sabia de cor as "leis do jornalismo" (a maioria vinda dos EUA, mas naquele momento foram importantes para nós) e, dizia-se, também o expediente de qualquer jornal ou revista (que valesse a pena) do Brasil e do exterior. Além de ter sempre à mão o restaurante para a gente ir comer e conversar sem garçom chato por perto.
Nos anos 50, o jornalismo nosso era atrasadão. Os títulos, padronizados, burocráticos; o texto, repetitivo e maltratado; a "mancha" (espaço da página usado para informação), quadrada, sempre igual, "fechada na oficina", como se dizia. Murilo ajudou a implodir isso, primeiro na Folha, depois nas empresas do "Estadão", no "Jornal do Brasil", na Editora Abril.
Toda Redação tem a turma dos "exibidos" (os que aparecem para o público) e o pessoal da criação, da edição. Murilo era dos que apareciam pouco. Mesmo no tempo curtíssimo em que foi repórter, publicava raramente. Com excesso de autocrítica, não ficava satisfeito com o que fazia, jogava fora, sofria... Mas, quando entregava o texto, era coisa fina. Designado uma vez para cobrir o Dia da Aeromoça (num tempo em que aviões eram de luxo, saíam e chegavam na hora, e as comissárias eram "um avião" de beleza eterna), enquanto os outros jornais saíram com títulos como "Comemora-se amanhã o Dia da Aeromoça", o texto do Murilo tinha na cabeça: "Problema de aeromoça é que ela vai ser aerovelha...".
Hoje isso parece uma firula; na época, era pura subversão.
Sendo artista plástico (desenhava com facilidade incrível, até em guardanapo), gostando de música (tocava piano) e curtidor de som (a exigência na escolha da aparelhagem de som era quase uma excentricidade), via o jornal, a revista, a página em branco com um potencial artístico de tal forma que ficaram famosas pela beleza algumas das páginas e das capas que ajudou a fazer no "JT".
Robson Alves, diretor de arte da DPZ, agência onde Murilo trabalhou muito tempo, em seus intervalos jornalísticos, diz que a principal qualidade dele, para compor e dirigir equipes tão complicadas quanto as de reportagem ou de publicitários, era "combinar pessoas", juntar talentos, apesar de eventuais diferenças, para fazer um trabalho.
Murilo Felisberto era jornalista e artista. Deixa uma filha, Carlota, e um neto, Antônio. E um aperto no peito de um velho repórter.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
O jornal mais bonito do mundo
Magy Imoberdorf
Formada em design gráfico na Suíça, cheguei a São Paulo em 1969. Desde minha primeira semana no Brasil, o que mais me chamou atenção foi um jornal, o Jornal da Tarde. Ele era diagramado como uma revista de arte. Era lindo. Tinha espaços em branco, coisa que não existia em nenhum jornal - aliás, não existe até hoje. Comecei a colecionar as páginas e me lembro de um caderno inteiro sobre Napoleão (mais tarde fiquei sabendo que era diagramado pelo Flávio Marco).Logo em meu primeiro ano de Brasil, fui trabalhar com Neil Ferreira na Norton, e a gente pendurava nas paredes as páginas do Jornal da Tarde como exemplo de layout criativo e de bom gosto. Eu queria muito conhecer quem fazia o JT, um tal de Murilo Felisberto (que era chamado de Rainha pelos amigos). Acho que o chamavam assim porque ele reinava mesmo. De cabelos brancos desde sempre, falava baixíssimo e tinha as mãos muito delicadas, para virar páginas de livros com muito respeito.
Comecei a mandar bilhetes de fã para ele, falando que o JT era o jornal mais lindo do mundo, e que eu gostaria muito de conhecê-lo. Eu e a Helga, que na época era minha chefe, fomos convidadas para um jantar na casa do Murilo, que tinha acabado de se mudar para um apartamento na Cristiano Viana. Lá havia um enorme piano, uma mesa branca de um metro por um e quatro cadeiras. As louças nas quais o jantar foi servido tinham sido compradas no supermercado naquela tarde pela empregada. A Helga percebeu esse detalhe logo que chegamos, e disse: “Como é que um homem com tamanho bom gosto tem estes pratos em casa?”. Ele nunca perdoou a Helga por isso.
Mais tarde fiquei sabendo que no andar de baixo do apartamento havia um quarto, um banheiro e uma enorme sala com um tapete branco forrado de revistas de arte e livro de propaganda, de design, enfim, de tudo que havia de mais moderno em editorial no mundo.
Comecei a freqüentar a turma do Murilo, composta por Fernando B., Mitri, Ivan Ângelo, Flavinho (que morreu por causa de uma operação de amídala), Waldinho (o preferido do Murilo, que morreu aos 27 anos de aneurisma), Telmo, Martinho, Sandrinha Abdalla, José Carlos etc...
A gente jantava tardíssimo no Giovanni Bruno, e depois todos eles voltavam para o Estadão para fechar o Jornal da Tarde. Também íamos muito ao bar do Jaraguá que ficava ao lado do prédio do Estadão/Jornal da Tarde.
Quando entrava o presidente Juscelino Kubitschek, todos se levantavam para cumprimentá-lo. Ele era amigo do Murilo, aliás, o Murilo era amigo das pessoas certas, da verdadeira elite do Brasil. Ele sempre sabia tudo antes de todo mundo e ria quando alguém descobria algo que ele já sabia fazia tempo.
Acabei namorando o Murilo, mas não sei direito se era o Murilo ou se era o JT. Eles se confundiam e eu também me confundia. Fomos juntos uma vez à Inglaterra e ele foi recebido pelo editor-chefe do Financial Times com todas as honras que ele merecia por fazer o jornal mais bonito do mundo (nas palavras também desse editor-chefe do Financial Times).
O Murilo protegia a turma dele, ele amava todos, aceitava cada um do jeito que era e sabia tirar o máximo de cada um, estimulando, incentivando e motivando do jeito dele.
Ele levantava às 14h, tomava café sem falar uma palavra e lia uns oito jornais do Brasil e do mundo, que ninguém podia abrir antes dele – ele tinha ódio de jornal já lido. Às 18h ia para o Jornal, às 22h saía para jantar, meia-noite ele voltava para o jornal e só saia ninguém sabia quando.
Ele levantava às 14h, tomava café sem falar uma palavra e lia uns oito jornais do Brasil e do mundo, que ninguém podia abrir antes dele – ele tinha ódio de jornal já lido. Às 18h ia para o Jornal, às 22h saía para jantar, meia-noite ele voltava para o jornal e só saia ninguém sabia quando.
Nosso namoro não durou mais de um ano, pois só nos víamos no jantar das 22h à meia-noite, no Giovanni Bruno. Mas o que ficou foi um grande carinho e uma admiração por um homem que adorava o design gráfico, o jornalismo e a sua turma.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Murilo, eterno Murilo
José Maria Mayrink
Foi amizade à primeira vista. Eu tinha dois anos de jornalismo, muito mais foca do que hoje, quatro décadas depois, quando cheguei à redação do Jornal do Brasil, em agosto de 1964, a convite não sei de quem, mas sem dúvida com o aval de Murilo Felisberto. Não o conhecia, mas ele sabia de minhas primeiras reportagens em Belo Horizonte - Correio de Minas, revista Alterosa e Diário de Minas - pois era um sujeito atento às novidades, sempre em busca do que chamava de revelações. Tínhamos amigos comuns, entre os quais Roberto Drummond, que por indicação dele foi ser copydesk no JB, um supercopy que, embora tivesse um belo salário, não se adaptou no Rio.
Murilo também não. Contratado por Alberto Dines para montar o Departamento de Pesquisa, surpreendeu os amigos, pois ninguém acreditava que ele saísse de São Paulo. Mineiros exilados - ele de Lavras, eu de Jequeri - logo nos entendemos nas poucas horas vagas que o trabalho nos dava. Como chegávamos cedo à redação, tirávamos um tempinho para tomar um café numa leiteria do Edifício Avenida Central, a dois quarteirões da Avenida Rio Branco, 110, antiga sede do JB. Café com pão e manteiga, pois ainda não havia pão de queijo no cardápio, era só pretexto para um bate-papo. Nenhuma pauta definida, mas sempre falando de reportagem.
Jornalismo, bons textos e boas fotos, comentários sobre a edição do dia, em meio a intermináveis silêncios, se intercalavam na conversa mineiríssima que a gente, de segunda a sexta-feira, naqueles meses de 1964 e no primeiro semestre de 1965, enquanto Murilo morou no Rio. Ele me pedia informações sobre quem estava se projetando em Minas, os novos talentos que pretendia incorporar à sua equipe, ali no JB ou em futuros projetos. As longas pausas da conversa me desconsertavam, pois quase nunca eu tinha respostas para o que me perguntava. Acho que esperava isso, porque na verdade só queria consolidar os conceitos já quase definitivos que fazia dos profissionais de sua admiração.
Noivo em São Paulo, Murilo passava a semana no Rio e tomava um avião da ponte aérea, toda tarde de sábado, para só voltar na segunda-feira. Costumava acompanhá-lo até o Aeroporto Santos Dumont, sempre a pé, para esticar a conversa e os silêncios da leiteria do Avenida Central. Num desses passeios, paramos na Cinelândia para comer pipoca.
- Como vai? - perguntou Murilo na hora de pagar.
- Tudo bem, mas são 50 cruzeiros - respondeu o pipoqueiro.
Apesar de nossa proximidade, nunca trabalhei com Murilo no Departamento de Pesquisa, que já em sua primeira fase reunia uma equipe extraordinária. Antônio Beluco Marra, Adauto Novaes, Luiz Carlos Lisboa, Luiz Paulo Horta, Luiz Tapias, Estela Lachter, João Máximo, Ana Maria Andrade, Moacyr Japiassu e Clotilde Hasselman foram os pioneiros de uma turma brilhante, à qual se juntariam em seguida Samuel Dirceu, Luiz Adolfo Pinheiro, José Nicodemus Pessoa, Roberto Pereira e Talvani Guedes Fonseca.
Outros vieram depois, mas, salvo traição da memória, chegaram após a volta de Murilo para São Paulo, onde ele participaria, peça-chave, da criação do Jornal da Tarde. Continuei no Rio por mais algum tempo, até que em junho de 1968 ele me telefonou para perguntar se não toparia sair do Rio. Mandou-me uma passagem de avião e, ao saber que Mino Carta também queria conversar comigo, aconselhou-me a ouvir a proposta de Veja, então em fase de lançamento.
- Vá para a Veja, pois a proposta do Mino é melhor; se não der certo, você vem pra cá - , disse Murilo, fazendo uma promessa que cumpriria seis meses depois. Luiz Orlando Carneiro, chefe de reportagem, tentou me segurar no JB e Alberto Dines, editor-chefe, também interveio. Não gostou de minha saída, tive a sensação de rompimento definitivo quando mantive a decisão de me demitir.
- Aquilo foi briga de amor, o Dines só não queria perder um bom repórter - comentou Murilo alguns meses depois, quando eu já estava no quinto andar da Rua Major Quedinho, trabalhando com ele em São Paulo. Um elogio que me deixou orgulhoso e uma interpretação que se confirmaria correta mais tarde, pois o Dines esqueceu o episódio e continuou meu amigo.
Murilo foi um dos meus mestres na profissão. Entusiasta da reportagem e, principalmente, de um bom texto, manteve-se fiel à sua mania de garimpar talentos promissores onde pudesse encontrá-los. Sobretudo em Minas, sua referência maior.
O JT e o Estado de S. Paulo devem a ele a descoberta ou a contratação de profissionais como Ivan Ângelo, Flávio Márcio, Marcos Faerman, Guilherme Duncan de Miranda, Fernando Mitre, Samuel Dirceu, Waldo Paolielo, Gabriel Manzano, Fernando e Toinho Portela, Valdir Sanches, Cláudia Batista, Valéria Wally, Anélio Barreto, Gilberto Mansur, Luiz Carlos Lisboa - e de mais uma dezena de talentos que se incorporaram à equipe pelas mãos dele ou de Mino Carta.
Ewaldo Dantas Ferreira, Fernando Morais, Ricardo Gontijo, Rolf Kuntz, Carlos Brickmann, Demócrito Moura, Inajar de Souza, Randáu Marques, Percival de Souza, Humberto Werneck, Moisés Rabinovici, Kleber de Almeida, Sérgio Rondino, Sandro Vaia, José Eduardo (Castor) Borgonovi, Antônio Carlos Fon, Marco Antônio Rezende, Marco Antônio de Menezes, Mário Lima, Décio Pedroso, Alberto Morelli, Ouhydes Fonseca, para citar mais alguns exemplos, também estavam no JT.
Luiz Carlos Lisboa, o Doutor Lisboa, como ele o tratava, foi braço direito do Murilo na redação. Sujeito de trato britânico, Lisboa foi encarregado de comunicar a um repórter que ele seria demitido, numa dessas fases de contenção de despesas.
- Acabo de ficar noivo, vou casar em janeiro, não posso ficar sem esse emprego - reagiu a vítima, deixando Lisboa sem reação. Também atônito, Murilo esperou passar um mês para mandar Lisboa voltar à carga.
- Já falei que vou casar em janeiro e que não posso sair. Quer me deixar irritado, é só tocar nesse assunto - insistiu o repórter que, é claro, acabou sendo mesmo dispensado.
Era esse o jeito de Murilo administrar pessoal. De fala mansa, sorriso constante e raras mostras de irritação, disfarçava com o silêncio, muitas vezes interpretado como indiferença, suas fases de mau-humor. Nunca me senti alvo de tais reações, mas ouvi sentidas queixas de alguns de seus melhores amigos.
Murilo adorava uma boa fofoca ou uma maldade até certo ponto inocente. Contava, repetia e, principalmente, ouvia com gosto o que corria pelas redações. Sabia também reconhecer o mérito e talento de seus colaboradores. Elogiava a boa apuração de uma reportagem, a excelência de um texto, a criatividade de uma diagramação. O JT deve a ele a qualidade e a beleza dwe sua melhor fase.
Em sua última passagem pela Avenida Marginal - ele mais uma vez editor-chefe do JT, eu na reportagem do Estado - tivemos rápidas conversas, quase só de pergunta e resposta, quando a gente se cruzava pelos corredores.
- Como vai a sua Igreja? - costumava me provocar, ao comentar posições oficiais do Vaticano ou manifestações de teólogos (referia-se aos da Libertação), quando queria falar de religião. Não importando o que eu pensasse, ele escutava e sorria.
Foi amizade até o fim.
Foi amizade à primeira vista. Eu tinha dois anos de jornalismo, muito mais foca do que hoje, quatro décadas depois, quando cheguei à redação do Jornal do Brasil, em agosto de 1964, a convite não sei de quem, mas sem dúvida com o aval de Murilo Felisberto. Não o conhecia, mas ele sabia de minhas primeiras reportagens em Belo Horizonte - Correio de Minas, revista Alterosa e Diário de Minas - pois era um sujeito atento às novidades, sempre em busca do que chamava de revelações. Tínhamos amigos comuns, entre os quais Roberto Drummond, que por indicação dele foi ser copydesk no JB, um supercopy que, embora tivesse um belo salário, não se adaptou no Rio.
Murilo também não. Contratado por Alberto Dines para montar o Departamento de Pesquisa, surpreendeu os amigos, pois ninguém acreditava que ele saísse de São Paulo. Mineiros exilados - ele de Lavras, eu de Jequeri - logo nos entendemos nas poucas horas vagas que o trabalho nos dava. Como chegávamos cedo à redação, tirávamos um tempinho para tomar um café numa leiteria do Edifício Avenida Central, a dois quarteirões da Avenida Rio Branco, 110, antiga sede do JB. Café com pão e manteiga, pois ainda não havia pão de queijo no cardápio, era só pretexto para um bate-papo. Nenhuma pauta definida, mas sempre falando de reportagem.
Jornalismo, bons textos e boas fotos, comentários sobre a edição do dia, em meio a intermináveis silêncios, se intercalavam na conversa mineiríssima que a gente, de segunda a sexta-feira, naqueles meses de 1964 e no primeiro semestre de 1965, enquanto Murilo morou no Rio. Ele me pedia informações sobre quem estava se projetando em Minas, os novos talentos que pretendia incorporar à sua equipe, ali no JB ou em futuros projetos. As longas pausas da conversa me desconsertavam, pois quase nunca eu tinha respostas para o que me perguntava. Acho que esperava isso, porque na verdade só queria consolidar os conceitos já quase definitivos que fazia dos profissionais de sua admiração.
Noivo em São Paulo, Murilo passava a semana no Rio e tomava um avião da ponte aérea, toda tarde de sábado, para só voltar na segunda-feira. Costumava acompanhá-lo até o Aeroporto Santos Dumont, sempre a pé, para esticar a conversa e os silêncios da leiteria do Avenida Central. Num desses passeios, paramos na Cinelândia para comer pipoca.
- Como vai? - perguntou Murilo na hora de pagar.
- Tudo bem, mas são 50 cruzeiros - respondeu o pipoqueiro.
Apesar de nossa proximidade, nunca trabalhei com Murilo no Departamento de Pesquisa, que já em sua primeira fase reunia uma equipe extraordinária. Antônio Beluco Marra, Adauto Novaes, Luiz Carlos Lisboa, Luiz Paulo Horta, Luiz Tapias, Estela Lachter, João Máximo, Ana Maria Andrade, Moacyr Japiassu e Clotilde Hasselman foram os pioneiros de uma turma brilhante, à qual se juntariam em seguida Samuel Dirceu, Luiz Adolfo Pinheiro, José Nicodemus Pessoa, Roberto Pereira e Talvani Guedes Fonseca.
Outros vieram depois, mas, salvo traição da memória, chegaram após a volta de Murilo para São Paulo, onde ele participaria, peça-chave, da criação do Jornal da Tarde. Continuei no Rio por mais algum tempo, até que em junho de 1968 ele me telefonou para perguntar se não toparia sair do Rio. Mandou-me uma passagem de avião e, ao saber que Mino Carta também queria conversar comigo, aconselhou-me a ouvir a proposta de Veja, então em fase de lançamento.
- Vá para a Veja, pois a proposta do Mino é melhor; se não der certo, você vem pra cá - , disse Murilo, fazendo uma promessa que cumpriria seis meses depois. Luiz Orlando Carneiro, chefe de reportagem, tentou me segurar no JB e Alberto Dines, editor-chefe, também interveio. Não gostou de minha saída, tive a sensação de rompimento definitivo quando mantive a decisão de me demitir.
- Aquilo foi briga de amor, o Dines só não queria perder um bom repórter - comentou Murilo alguns meses depois, quando eu já estava no quinto andar da Rua Major Quedinho, trabalhando com ele em São Paulo. Um elogio que me deixou orgulhoso e uma interpretação que se confirmaria correta mais tarde, pois o Dines esqueceu o episódio e continuou meu amigo.
Murilo foi um dos meus mestres na profissão. Entusiasta da reportagem e, principalmente, de um bom texto, manteve-se fiel à sua mania de garimpar talentos promissores onde pudesse encontrá-los. Sobretudo em Minas, sua referência maior.
O JT e o Estado de S. Paulo devem a ele a descoberta ou a contratação de profissionais como Ivan Ângelo, Flávio Márcio, Marcos Faerman, Guilherme Duncan de Miranda, Fernando Mitre, Samuel Dirceu, Waldo Paolielo, Gabriel Manzano, Fernando e Toinho Portela, Valdir Sanches, Cláudia Batista, Valéria Wally, Anélio Barreto, Gilberto Mansur, Luiz Carlos Lisboa - e de mais uma dezena de talentos que se incorporaram à equipe pelas mãos dele ou de Mino Carta.
Ewaldo Dantas Ferreira, Fernando Morais, Ricardo Gontijo, Rolf Kuntz, Carlos Brickmann, Demócrito Moura, Inajar de Souza, Randáu Marques, Percival de Souza, Humberto Werneck, Moisés Rabinovici, Kleber de Almeida, Sérgio Rondino, Sandro Vaia, José Eduardo (Castor) Borgonovi, Antônio Carlos Fon, Marco Antônio Rezende, Marco Antônio de Menezes, Mário Lima, Décio Pedroso, Alberto Morelli, Ouhydes Fonseca, para citar mais alguns exemplos, também estavam no JT.
Luiz Carlos Lisboa, o Doutor Lisboa, como ele o tratava, foi braço direito do Murilo na redação. Sujeito de trato britânico, Lisboa foi encarregado de comunicar a um repórter que ele seria demitido, numa dessas fases de contenção de despesas.
- Acabo de ficar noivo, vou casar em janeiro, não posso ficar sem esse emprego - reagiu a vítima, deixando Lisboa sem reação. Também atônito, Murilo esperou passar um mês para mandar Lisboa voltar à carga.
- Já falei que vou casar em janeiro e que não posso sair. Quer me deixar irritado, é só tocar nesse assunto - insistiu o repórter que, é claro, acabou sendo mesmo dispensado.
Era esse o jeito de Murilo administrar pessoal. De fala mansa, sorriso constante e raras mostras de irritação, disfarçava com o silêncio, muitas vezes interpretado como indiferença, suas fases de mau-humor. Nunca me senti alvo de tais reações, mas ouvi sentidas queixas de alguns de seus melhores amigos.
Murilo adorava uma boa fofoca ou uma maldade até certo ponto inocente. Contava, repetia e, principalmente, ouvia com gosto o que corria pelas redações. Sabia também reconhecer o mérito e talento de seus colaboradores. Elogiava a boa apuração de uma reportagem, a excelência de um texto, a criatividade de uma diagramação. O JT deve a ele a qualidade e a beleza dwe sua melhor fase.
Em sua última passagem pela Avenida Marginal - ele mais uma vez editor-chefe do JT, eu na reportagem do Estado - tivemos rápidas conversas, quase só de pergunta e resposta, quando a gente se cruzava pelos corredores.
- Como vai a sua Igreja? - costumava me provocar, ao comentar posições oficiais do Vaticano ou manifestações de teólogos (referia-se aos da Libertação), quando queria falar de religião. Não importando o que eu pensasse, ele escutava e sorria.
Foi amizade até o fim.
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