quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Extra! Extra!

Percival de Souza

Murilinho era repórter das Folhas (Manhã, Tarde, Noite), eu contínuo da redação.

As máquinas de escrever ficavam embutidas sob a tampa das mesas de madeira. Na hora em que quase todos escreviam, aquele barulho produzia um som incomparável, uma delícia como o cheiro de graxa na rotativa. Eu, adolescente, sabia que havia um time de repórteres de primeira linha no jornal. E Murilo sempre foi símbolo do bom texto, eterno produtor do espetáculo das palavras, esculpindo frases e parágrafos com esmero e capricho. E desenhando, quase solitariamente, naqueles tempos em que Maurício de Souza se empenhava mais nos desenhos do que em ser repórter policial do time comandado por Jarbas Lacerda e suas eternas gravatas borboletas. Havia, também, o chargista oficial da editoria de Política, Orlando Mattos, e o faz-tudo Nelson Coletti, irmão do chefe do Departamento Pessoal.

Meu sonho era ser, algum dia, como um daqueles repórteres que eu tanto admirava: José Hamilton Ribeiro, Neil Ferreira, Ennio Pesce, Roland Marinho Sierra... Comecei a produzir um jornalzinho de circulação interna, que - modéstia à parte - desbancou, numa parede dos fundos, o canto de avisos gerais, piadas e protestos, chamado "O Boato". Meu jornal trazia as fofocas da redação, tinha informantes nas reuniões dos editores, continha informações obtidas em primeira mão, "furos" até, e de vez em quando tinha o privilégio de contar com um desenho de Murilo Felisberto, que os produzia com certa rapidez, assobiando baixinho. Um contínuo pautava Murilo Felisberto! De repente, voltando de uma viagem a Londres, o diretor das Folhas, José Nabantino Ramos, mandou instalar um sino na redação. O sino tocava pontualmente em horários de reunião e fechamento.

Era réplica de um de redação inglesa. Contamos essa história em nosso jornal. Foi um sucesso.

Murilo, no início dos anos sessenta, trocou as Folhas pelo Jornal do Brasil, onde foi chefiar o Departamento de Pesquisa. O JB era a Bíblia de então. Ficamos felizes por Murilo: jovem e já no jornal-referência da imprensa brasileira.

Foi então que ele fez um artigo sobre o jornal do futuro. Era um texto agradável, antevendo avanços tecnológicos. Terminava dizendo que o chefe de redação seria uma espécie de robô. E, diariamente, o responsável pela manutenção chamaria o contínuo, no encerramento do expediente, e diria: "Por favor, Percival, não se esqueça de lubrificar o redator-chefe".

Todos se divertiram com essa história. Passei um telegrama para ele. Os termos: "Contínuo é a PQP". Acontece que estavam começando os anos de chumbo da ditadura militar e aquilo, suspeitou-se, poderia ser uma mensagem subversiva em código, circunstância que eu, já engatinhando no jornalismo, precisei explicar às autoridades competentes de maneira humorada e convincente.

Nossos destinos se encontrariam no Jornal da Tarde, que iríamos fundar em janeiro de 1966. Diretor, Mino Carta; Murilo, secretário de Redação. Era uma nova escola de texto e diagramação. Arte pura em dias memoráveis.

Murilo Felisberto tinha, entre outros, um dom especial: intuir aquela que seria uma grande matéria e desenhá-la antecipadamente. Certa vez, perguntou-me se seria possível fazer uma reportagem sobre tipos de crimes que mais acontecem ao longo dos meses do ano. Respondi que não havia pensado nisso, mas iria verificar. Descobri, na Polícia, que essas características existiam e se refletiam em variáveis de roubos, furtos, assassinatos, brigas, agressões. Murilo ouviu e horas depois me chamou para mostrar uma página desenhada, como título já pronto: "O Calendário do Crime". A arte lembrava mesmo um calendário, de janeiro a dezembro, com desenhos de ladrões, gente empunhando armas, pessoas estiradas no chão. Então, fiz a matéria com as informações necessárias, dentro do tamanho pré-determinado. Teve uma grande repercussão, até mesmo dentro da Polícia.

Outra reportagem assim, precedida de uma conversa sobre tráfico e consumo de drogas na alta sociedade, provocou um desenho de página anterior à matéria. E o título: "Society Cocaína". Foi tão bom esse título do Murilo que o usei para um livro, que escreveria anos depois.

Dizia-se, na redação, que aquele maço de jornais e revistas que ele sempre carregava como marca registrada pessoal, significavam a sua eterna busca por um texto impecável. Passou a circular uma história sobre tempos em que a Rainha - incrível, era este o apelido dele na redação - estava apaixonada por uma musa que, imaginávamos, seria irresistível. Tanto que tínhamos muita curiosidade em descobrir quem seria. E, segundo consta de fonte fidedigna, um amigo mais próximo foi merecedor das confidências de Murilo sobre o palpitar mais forte do coração. Ele teria descrito a moça com o encanto dos olhos, dos cabelos, da voz, da meiguice, as leveza dos movimentos. Arremate da confissão: "...e tem um texto!" Seria assim a mulher perfeita, segundo Murilo.

Por causa do bendito texto, ele contratou, na redação do JT, uma professora da Universidade de São Paulo, cuja tarefa diária era assinalar falhas de estilo, concordâncias se fosse o caso, e análise de texto nas matérias. A professora fazia isso em provas de páginas, todas marcadas implacavelmente com lápis vermelho. Murilo observava atentamente a cada análise crítica. Depois, chamava alguns dos editores e gargalhava de tanto divertir-se com as observações feitas. Diante dela, porém, sempre se mantinha circunspecto.

Em julho de 1972, ele escolheu algumas das reportagens que ele considerou as melhores da história do JT em seus primeiros dois mil números. E concebeu um suplemento, cujo título foi "Jornal da Tarde nº 2001". Elas foram reproduzidas e ilustradas - uma grande honra para os autores, senti-me orgulhoso de estar entre eles.

Algumas primeiras páginas históricas foram resultado do seu trabalho em examinar os assuntos principais do dia e definir, então, a capa do jornal. Uma delas era um jogo de camisas. Duas delas: uma de presidiário, para um industrial, apelidado de "Mau Patrão", condenado judicialmente. "Ponha essa camisa no mau patrão". Outra, de um jogador contratado por um dos times de futebol de São Paulo. "Vista a camisa de seu time nesse jogador". Uma criatividade incrível.

Quando a Polícia descobriu o lugar onde se fazia o encontro promovido pela União Estadual dos Estudantes (UNE), tínhamos nas mãos uma cobertura excepcional. O sítio em Ibiúna foi invadido pela Polícia ao amanhecer de um sábado. Tínhamos um repórter lá dentro e uma grande cobertura, de fora. O JT não circulava aos domingos. Fomos em comitiva ao apartamento do Murilo, sugerir que saísse uma edição extra. Ele não se entusiasmou, considerou inviável, argumentou que precisava um pouquinho mais de tempo para que a edição de segunda fosse impecável, imbatível. Seria mesmo. Mas saímos frustrados do apartamento, amaldiçoando a Rainha. Escrevemos sábado e domingo. E foi no domingo, ao me ver escrevendo que ele passou pela minha mesa e sorriu, como se dissesse que aquele tempo a mais era comprovadamente necessário. Provocou: "Eu não disse?" Minha reação foi de xingá-lo baixinho. Mas depois admiti que ele estava certo. O material era muito bom para ser fechado às pressas. E Murilo, atento na redação, demonstrava que sua indiferença era apenas aparente - mais uma vez estava sendo profundamente profissional.

Apareceu com seus jornais e revistas no lançamento de meu livro Eu, cabo Anselmo. Disse a ele que o seguinte, Autópsia do Medo, uma biografia do delegado Sérgio Fleury, seria ainda melhor. Ele sussurrou, como se aconselhando: "Calma, calma..." De fato, não me apressei. Segui as instruções da nossa Rainha.

Murilo Felisberto, no meu caso, foi a história de uma amizade de quase cinqüenta anos. Isso mesmo: meio século. De moleque a adulto. De contínuo a repórter. Murilo transformou-se em sua própria notícia.

Quando desaparece um jornalista como ele, nós morremos um pouco - não só porque os sinos dobram por todos, mas em razão de que haverá menos criatividade. Menos liberdade. Menos razão.

No momento supremo da prestação de contas da vida de Murilo Felisberto, podemos assinalar que o excepcional jornalista buscava ardentemente a perfeição. E conseguiu, tantas vezes, produzir obras que podem ser consideradas respeitas. Assim como se a folha de uma árvore pintada por um pincel que chegara à perfeição ganhasse vida de repente numa tela, encerrando nesse momento o espírito de todas as folhas.

Um jornalista como Murilo Felisberto, através de seus trabalhos realizados com tanta dedicação, arte e paixão pela profissão, encerra em si o espírito de todos os jornalistas do mundo.

Um comentário:

Neil disse...

Por que eu acho que o jornal interno do Percival não se chamava "O Boato " ?
Por que eu tenho certeza de que era "Jurgen Press " ?
Acho que fui atingido pelo terrorista e serial killer muçulmano AL Zheimer, que nos ataca, indefesos, na 3a. idade.
Ou o atingido teria sido o Percival ?